8 de Março de 2008 - eu também fui
Se depois de ontem ainda há pessoas que acham que os professores são uns mandriões que não querem perder direitos e não se preocupam com os alunos ou com a qualidade do ensino, talvez esteja na altura de reflectir melhor. Quando as questões são apenas essas (e já foram no passado), não se mobiliza as pessoas dessa forma, não se junta as pessoas de tão diferentes ideologias políticas, mentalidades, etc. Somos mais de 140 mil em todo o país, ontem estivemos cerca de dois terços, e muitos dos que não foram queriam estar lá. Mobilizámos-nos num sábado, numa altura de tanto trabalho com as avaliações à porta, que o sábado perdido faz toda a diferença, e as únicas pessoas a quem prejudica é... a nós próprios (que o diga eu, que não sei onde vou encaixar os testes todos para corrigir, mais as avaliações para pensar e fazer, os relatórios de apoio para elaborar – e tenho a grande sorte de não ser directora de turma, ou este sábado faria ainda mais diferença).
Nós, que estamos por dentro, somo os primeiros a dizer que o ensino não vai bem em Portugal. Muito antes de esta ministra chegar ao poder, já nós sabíamos que os níveis de insuceso e de abandono eram escandalosos. Sabemos é algo que este governo mostra não saber (ou, na minha opinião, finge não saber porque não lhe convém): é que nenhum sistema educativo muda radicalmente em dois ou três ou quatro anos, mas das medidas que se tomam hoje muitas vezes só se vêem resultados palpáveis daqui a uma década ou mais. Ora, com as finanças públicas no estado em que estão, com um mandato de quatro anos, com a data limite para mostrar que se inverteu a situação à porta (2010), não admira que o governo ache mais fácil resolver o insucesso pela via estatística do que pela via que dá trabalho, custa muito dinheiro, e demora a mostrar resultados:
- diminuir o número de alunos por turma para um máximo de 20;
- diminuir o número de disciplinas que os alunos do ensino básico têm e remover as que não têm interesse nenhum e só prejudicam a capacidade de concentração dos alunos nas restantes disciplinas (refiro-me a Estudo Acompanhado, Área de Projecto e Formação Cívica, claro...) – fazendo isto nem seria preciso aumentar muito ao número de professores;
- rever programas de forma a ser tornarem exequíveis durante o ano lectivo, principalmente até ao 9º ano, com menos conteúdos e mais tempo para desenvolver esses mesmos conteúdos de forma ajustada para os alunos (sabiam que com a mudança de aulas de 50 para 45 minutos perdemos umas horas de aulas por disciplina por ano – no meu caso, Inglês, calculo essa perda em cerca de sete horas – mas os programas mantêm a mesma extensão?)
- equipar escolas e dotá-las de um orçamento ajustado que permita pagar o aquecimento no inverno para os alunos não tiritarem de frio durante as aulas – e já agora equipar muitas escolas com aquecimento –, um orçamento que dê para pagar fotocópias que tanta falta fazem (na minha escola o orçamento é tão baixo que o limite de fotocópias para os alunos do ensino básico – ensino obrigatório e gratuito, não nos esqueçamos – é ridiculamente baixo e tem de ser gerido com muito cuidado para não ser ultrapassado, desencorajando a criação de materiais diversificados para alunos com capacidades diferentes);
- dar aos professores condições materiais na escola para fazerem o seu trabalho sem terem de constantemente pagar materiais, fotocópias, impressões, canetas, tinteiros, marcadores, lápis, borrachas, etc, etc do seu bolso;
- responsabilizar mesmo alunos e pais – estes principalmente – pelos problemas de comportamento, pelo absentismo, e não passar a vida a passar a mão pela cabeça dos alunos, porque depois de fazer o que podemos fazer, ficamos de mãos e pés atados; por que não multar os pais cujos filhos faltam às aulas, por que não multar pais cujos filhos têm um comportamento desajustado – e não conseguem resolver os problemas dos seus filhos nem impor disciplina?
- dotar as escolas de todos os recursos humanos de que precisa e sem os quais o funcionamento se torna mais difícil e menos apoiado – técnicos como psicólogos (ai que falta que fazem...) e professores do ensino especial, que nos ajudem a lidar com os alunos com os quais não sabemos lidar pois não estamos preparados para tal (a nossa função é essencialmente transmitir conhecimentos, é para isso que nos preparam); auxiliares de acção educativa em número suficiente para todas as necessidade da escola, e são tantas – é imoral recorrer constantemente aos Centros de Emprego para ter funcionários que estarão na escola seis meses, sem formação, para passado esse tempo serem substituídos por outros, e depois por outros, e depois por outros, e não reconhecer que essas pessoas fazem tanta falta que lhes devia ser dado um local de trabalho permanente, com pagamento adequado e suficiente para viver (e não a vergonha que são as remunerações dos funcionários não docentes), com formação adequada para a posição que ocupam;
Tanta mais coisa haveria a acrescentar, estas são aquelas de que me lembro. Para este governo é mais fácil mudar as coisas de forma estatística, de forma que, ao serem individualmente avaliados pelas notas que dão e pelos níveis de sucesso e abandono (mas ninguém vê como isto é perverso???) os professores acabem por baixar o nível de exigência e as notas subam de forma estatística, porque é só disso que se trata e mais nada... É imoral responsabilizar individualmente um professor por ter alunos com dificuldades, quando há tantas mas tantas questões que influenciam o sucesso ou insucesso dos alunos ou os níveis de abandono escolar (questões sócio-económicas, questões psicológicas, familiares, o aumento do desemprego, as baixas qualificações de tantas famílias, as famílias desajustadas, etc...). Responsabilizem uma determinada escola por não ser capaz de lutar contra isso enquanto escola, reconheça-se isso e dê-se apoios concretos às escolas para mudar as coisas e mobilizar a comunidade, mas não se responsabilize os professores individualmente ameaçando-os com sanções, ou entraves ao avanço na carreira, ou castigos como o não poder concorrer a destacamento caso não tenha o bom (é o meu caso, que estou efectiva longe de casa).
Finalmente, a educação é um serviço, não é nem pode ser um negócio! Para isso existem as escolas privadas. As escolas públicas não podem ser vistas como empresas. Às vezes é preciso “perder” dinheiro para ganhar, e muito, noutros aspectos. Mas isto ninguém diz, que o défice público e a UE não deixam...
E pronto, mais não tenho tempo para dizer, que os testes, hoje, domingo, quando devia estar a descansar e a recuperar para mais uma semana de aulas, me esperam... e esses têm de ser corrigidos agora, não há volta a dar! Por isso, vou trabalhar, aquilo que muita gente acha que nós não fazemos. Pensem o que quiserem: a mim interessa a opinião dos meus alunos apenas, e dessa eu não tenho medo...
Etiquetas: ensino


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