Domingo, Novembro 18, 2007

Indisciplina + professores = stress

Com se fosse preciso pensar muito para chegar a esta conclusão... Qualquer um de nós, ao fim de um dia de trabalho, pode dizer isto, e não precisa de estudos. Mas claro que é bom que haja quem de vez em quando se debruce sobre este assunto e ponha por escrito aquilo que nenhum de nós precisa que seja estudado para saber.

Saiu esta notícia n' O Primeiro de Janeiro um dia destes (não fixei o dia, mas foi esta semana):

Professores são muito expostos ao stress

A sociedade está mais violenta e isso agudizou também a conflitualidade entre alunos e professores. João Amado, investigador da Universidade de Coimbra, explica assim o aumento da indisciplina nas aulas. A Confap descarta a responsabilidade dos pais e culpa os docentes.

Os professores são dos profissionais com maiores índices de stress e exposição ao risco, devido à indisciplina dos alunos, que tem aumentado bastante nos últimos anos. Para João Amado, docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e autor de várias obras sobre indisciplina, “a escola reflecte o que se passa na sociedade, que também está mais violenta. A indisciplina agravou-se progressivamente, passando da mera infracção das regras ao comportamento mais violento e conflituoso”, explicou. Francisco Meireles, professor de Educação Visual e Tecnológica, não tem dúvidas disso. Depois de 14 anos longe do ensino, a trabalhar nos serviços centrais do Ministério da Educação, regressou à escola no passado ano lectivo e garante que “a surpresa não está a ser nada agradável”.
De acordo com o professor, “a degradação instalou-se a passos largos. Os insultos generalizaram-se, há agressões e conflitos quase todas as semanas”. Há dias em que Francisco se sente arrependido de ter voltado ao ensino, e não passa um sem que se recorde de como “antes os miúdos eram mais cordatos. O professor entrava e havia um ambiente acolhedor. Havia respeito pelo professor e pela própria escola enquanto instituição”, enfatiza, em palavras bem ilustrativas da desmotivação que o João Amado garante estar disseminada entre os professores, afectados por uma “grande indefinição na comunidade educativa e pela generalização da própria ideia de crise”. O perito considera que “os docentes têm pouca preparação a nível pedagógico e de resolução de conflitos, havendo enorme falta de psicólogos, mediadores e assistentes sociais que complementem o seu trabalho”.
Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, diz que “as famílias assumem as suas responsabilidades na educação dos filhos”, mas aponta o dedo aos professores, que muitas vezes se demitem de exercer a autoridade junto dos alunos e agem com “grande condescendência relativamente a situações de indisciplina”, explicando-se deste modo que a mesma turma tenha um comportamento impecável com um professor e seja altamente indisciplinada com outro.

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Valores
Responsabilidades
“O quadro de valores na relação com o professor enquanto pessoa mais velha e figura de autoridade tem vindo a degradar-se progressivamente”, disse João Grancho, presidente da Associação Nacional dos Professores, que lançou e gere a linha telefónica de apoio. O afastamento dos pais relativamente ao acompanhamento escolar dos filhos, a quebra na imagem pública da escola e o agravamento das desigualdades e tensões sociais nos últimos anos são as principais razões do problema. “Tem-se deslocado para a escola a responsabilidade sobre uma resposta a problemas que são transversais a toda a sociedade. A escola não aguenta mais encomendas”, refere.

Incomoda-me um pouco, sinceramente, que a indisciplina seja constantemente conotada com a violência, embora sim, é verdade que a indisciplina também é uma forma de violência...

Mas a violência verdadeira, essa é rara, excepto em algumas escolas em que infelizmente é o pão nosso de cada dia, e não é essa que desgasta no dia a dia a maioria de nós.

Eu digo o que me desgasta:

  • ter de lembrar constantemente os alunos, principalmente os mais novos, e mesmo alunos bem comportados na aula, que entrar numa sala de aula não é a correr nem aos empurrões;
  • lembrá-los que quando entram na sala de aula devem baixar o tom de voz antes de entrar, e não depois de sentados;
  • lembrar constantemente os alunos, mesmo os bem comportados, que pastilha elástica e bonés não são boa educação;
  • estar permanentemente atenta aos telemóveis e afins, ter de apreendê-los de vez em quando e, constantemente, explicar aos alunos que uma vez aprendido um telemóvel o entregarei ao director de turma e não, não o devolverei no fim da aula;
  • responder vinte vezes numa aula "não" à pergunta "podemos sair mais cedo?";
  • explicar pelo menos cinco vezes em cada aula de 7º ou 8º ano (e por vezes 9º ou até 10º...) que tudo o que é escrito no quadro é para passar para o caderno, que se eu sublinho no quadro o devem sublinhar no caderno, etc;
  • explicar não sei quantas vezes aos alunos que são eles os responsáveis pelos seus próprios cadernos, eles é que sabem a cor que devem usar para escrever e para sublinhar, etc;
  • ter de explicar aos alunos que não, falar comigo no mesmo tom que usam para falar entre eles não é aceitável (e já agora, ouvir em resposta que é esse o tom que usam para falar aos pais e estes não se importam - ouvi esta há muito pouco tempo dum aluno de 18 anos);
  • ter de explicar variadas vezes aos alunos que não, não é correcto falar a meio da aula e em voz alta com um colega que se encontra do outro lado da sala;
  • ter de lembrar os alunos repetidas vezes que não, não se podem levantar sem a minha autorização, mesmo que seja para ir pôr um papel no lixo;
  • ter de relembrar repetidas vezes os alunos que se precisam dum lápis ou duma caneta me devem pedir autorização primeiro e só depois pedir um lápis ou uma caneta em voz alta;
  • ...
  • ...
Podia continuar por aqui e a lista seria enorme... Claro que sei que muitas destas coisas são normais, nem tudo me desgasta da mesma forma, e estou bem ciente que também é o meu papel educar os alunos em relação a muitas destas coisas, por muito que em teoria ache que tal não devia ser necessário, pois deveria ser educação trazida de casa. E desgasta-me mais, psicologicamente falando, ter de lembrar estas coisas a alunos mais velhos do que aos mais novos, de 7º ou 8º ano...
Preocupa-me ainda ver que há comportamentos que cada vez mais são vistos como normais por nós professores, quando não o deviam ser. Ainda há pouco tempo disse a uma turma: no dia em que eu achar normal que um aluno me fale como fala com um colega, nesse dia desisti do meu papel.
O facto de um professor ser amigo dos alunos e até se relacionar com eles de forma algo informal, como eu faço, não devia ser sinónimo de autorização para ultrapassar a linha do respeito básico que se deve a um adulto, que está cada vez mais ténue...

As observações do professor Francisco Meireles no artigo d'O Primeiro de Janeiro só mostram que quem trabalha muito tempo nos serviços centrais do ME, em sítios como as DREs ou os extintos CAEs, perde a noção do que realmente se passa nas escolas em termos de disciplina.

Os senhores da Confap também não devem ter noção, porque o simples facto de pertencerem à Confap mostra que são pais preocupados, que se importam com os seus filhos e lhes dão a educação adequada. Não são os filhos destes senhores que criam os piores problemas.

E sim, é verdade que é mais fácil a uns professores manter a disciplina do que a outros. Nem todos temos aquele carisma que faz com que os alunos olhem para um professor com um respeito quase inconsciente. Eu diria mesmo que os professores com esse carisma são a minoria. Eu não o tenho. Esforço-me por manter a disciplina e não me parece que faça um trabalho muito mau. Os senhores da Confap terão razão em casos pontuais, mas não podemos reduzir o fenómeno da indisciplina à questão do professor que não se dá ao respeito, pois o aumentar da indisciplina é sentido por todos os professores, mesmo os tais com o tal carisma e em cujas aulas se ouve as moscas. Custa-me ver muitos pais sacudir a água do capote e dizer "Eu não sei que mais lhe fazer, sr. professor, castigue-o por mim, por favor".

Só para terminar este post que já vai enorme, se todos reconhecemos que a sociedade está mais complexa e violenta, se todos sabemos que a escola para todos traz para as escolas alunos com problemas pessoais e familiares complicadíssmos, que dizer deste Ministério que se recusa a dotar todas as escolas de técnicos competentes para lidar com estas situações, nomeadamente psicólogos?
Sabem o que a DREN disse à minha escola? Que façamos uma parceria com um psicólogo particular, ou com uma clínica. Só que os psicólogos não trabalham de graça, não é? Onde se vai buscar dinheiro para lhes pagar? Aos pais dos alunos não podemos pedir (ensino gratuito e obrigatório para todos até ao 9º ano devia incluir apoio gratuito quando ele é necessário), o orçamento da escola chega para pagar as contas e olha lá... Entretanto os problemas mais ou menos graves de alguns alunos lá estão, a interferir na sua aprendizagem, na sua relação com colegas e professores, etc. Mas o Ministério não pode gastar dinheiro em coisas fúteis como psicólogos, ou professores do Ensino Especial, os super-professores (vulgo, nós mesmos, professores normais) têm de saber lidar com um aluno desses e já agora resolver magicamente os seus problemas também...

Já falei demais. Este assunto dá-me pano para mangas... Às vezes dou por mim a pensar nestas coisas no duche matinal, como hoje, domingo, me aconteceu. Será sinal de stress??

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