segunda-feira, abril 14, 2008

Afinal, somos Mileuristas...

Alguém se reconhece nisto? Eu reconheço-me (apesar de já viver em casa própria, que me custa muito a pagar...) e reconheço muitos dos meus amigos. Somos mileuristas (sim, que eu sou prof há 12 anos, mas não pensem que ganho muito acima disso). E a geração X. Bolas... parece que não há mesmo esperança para nós... ;-)



Opinião de Beja Santos n' O Primeiro de Janeiro de hoje:

Mileuristas, o retrato de uma geração

Em Maio de 1968, os jovens estudantes revoltosos parecem ser os protagonistas da História, sentem-se capazes de alterar o sentido da civilização, são contestatários, e críticos da sociedade de consumo. Porém, são igualmente a primeira geração da sociedade de consumo, nasceram num mundo diferente, no tempo do pleno emprego, de uma taxa de inflação muito baixa, de grandes níveis de crescimento. Estes jovens nascidos em 1945 ou 1946 não tinham praticamente conhecido as privações da guerra, cresceram com a opulência, o acesso aos cuidados de saúde para todos, as pensões de reforma e invalidez, quando se democratizava o sistema educativo, quando as férias passavam obrigatoriamente a ser em Agosto, era um mundo que parecia haver emprego para toda a vida.
Beja Santos

Sabemos hoje que os jovens que tinham feito o Maio de 1968 conquistaram o poder, já não pensam da mesma maneira e os jovens que lhes sucederam tornaram-se consumidores e pouco mais. Os jovens da primeira sociedade de consumo agora são os agentes da história, os jovens actuais são duvidosamente os agentes do consumo. Interessa saber porquê.
Com as vicissitudes do salto tecnológico dos anos 70 para os anos 80, iniciou-se a crise do Estado Providência, veio o liberalismo e nenhuma transformação económica, social e cultural passou a estar centrada nos jovens. Numa sociedade que passou a viver no sobressalto de sucessivas transições, vimos surgir jovens cada vez melhor equipados e a viver a precarização e mesmo a semipobreza: jovens de 25 a 34 anos, licenciados, bem preparados, falando línguas, acumulando competências e vivendo com cerca de mil euros por mês. “Mileuristas”, por Laura Espido Freire (Ambar, 2008) é o retrato dessa geração cheia de expectativas e que vive com baixos salários. É uma análise da sociedade espanhola mas que permite extrapolações e convida a fazer estudos fundamentados sobre os mileuristas que têm um elevado nível de escolaridade mas sem horizonte, consumistas e pobres, os portugueses.
O mileurista vive até tarde em casa dos pais, compra carro em 2 ª mão, não pode poupar, é habitualmente urbano, tem a ambição de viajar e quer ter sucesso no trabalho. O mileurista nasceu entre 1965 e 1980, viu o país a conhecer melhores redes viárias, envolvido em grandes eventos e com melhores níveis de escolaridade. É a geração do trabalho descartável e da compra de casa a quarenta anos. Quando começou a ser conhecida como a geração X, pensava-se que era uma simples etapa de transição. Veio a globalização, as pandemias, o terrorismo, mas acentuou-se o precário, os jovens estavam e estão cercados de empresas que fecham, de situações de pré-reforma, de cinismo e oportunismo. Em termos paradoxais, coabitam com a geração dos triunfadores e repartem com eles modos e estilos de vida, são uma geração marcada pela economia e não antevêem respostas fáceis para os problemas reais que atravessam a sociedade e a sua própria existência: os salários baixos, o preço da habitação, a falta de reconhecimento, as dificuldades de emancipação e a diferença entre as expectativas criadas e a realidade. O mileurista cresceu no meio de séries televisivas a apregoar o triunfo do indivíduo e numa economia de mercado centrada em Silicon Valley, Bill Gates e Richard Branson. Descobriu que o inglês é muita mais que a língua de negócios e da informática e que vão ter de estudar toda a vida pois o conhecimento está em permanente mudança, em nenhuma profissão é possível cristalizar. O mileurista é homem ou mulher até porque a sociedade de consumo alterou radicalmente o acesso à universidade, a mulher está praticamente em todas as carreiras prestigiadas, basta ver os prémios científicos, as juízas, arquitectas e engenheiras. A flexibilização não olha a sexos, a mileurista tem que ser competente em todos os terrenos, afrontar o trabalho temporário, os contratos descartáveis, suportar a dureza das rotinas quando é mãe mulher estudante e profissional e, por vezes, aceitar lugares penosos como emigrante ou como bolseira. Não é por acaso que se fala cada evz mais na geração de call-center e dos Mcjobs, trabalhos mal remunerados que trazem algum dinheiro e evitam a total dependência.
O mileurista altera o sistema de valores, contamina e é contaminado pelos baby boomers, os seus pais e tios que têm trabalho mais estável, que são executivos ou pequenos, médios ou grandes empreendedores. Estes baby boomers têm poder e na maioria dos casos, estimulam os mileuristas, nunca os convidando a sair de casa, atraindo-os muitas vezes ao negócio empresarial familiar.
O mileurista julga que merece muito mais, sente mais necessidade de evasão que as outras gerações, é por definição escapista, trabalha que se farta e é boémio, tem uma espiritualidade entre a recompensa imediata, a fé em algo superior, mas sempre com base numa religião à medida, na mente e na alma é um sonhador realista que não desistiu de acreditar em si. Tem pouca convicção no seu voto, concentra os seus direitos na sua condição de consumidor, aguarda a sua hora de cumprir os ideias, de melhorar o seus status, de deixar de pertencer ao grupo de mileuristas de transição. O mileurista, se tudo correr como está previsto, não se resignará à espera que tudo mude. Confia que tudo será melhor se ele próprio der o exemplo e triunfar em toda a linha.
Este livro tem, entre outros méritos, o de nos assegurar um retrato a preto e branco do que deverá ser a sociedade portuguesa e a sua geração mileurista. Valia a pena saber-se muito mais como são e para onde vão estes grupos não classificados de mileuristas com quem convivemos mas muito mal conhecemos, no seu todo.

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domingo, março 30, 2008

Oliveirinha and Friends

Devido a esta situação, os Bichanos do Porto abriram um blog novo, Oliveirinha and Friends. Toda a ajuda é necessária, quer apadrinhando um animal, quer ajudando com ração.

A morada deste blog novo é:
http://oliveirinha-and-friends.blogspot.com/

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sexta-feira, março 28, 2008

Os parasitas da sociedade

Tenho-me divertido, de vez em quando (muito não, que não tenho tempo) a ler os comentários dos leitores do Público online às diversas notícias. Naturalmente leio mais sobre educação, mas também me divertem outros comentários.

Descobri, por isso, nestes últimos dias, que há mais parasitas da sociedade do que eu imaginava. Ou seja, além dos professores (acho que apesar de tudo, pelo menos nos dias que correm, ainda ocupamos um honroso primeiro lugar nesta lista...) e dos funcionários públicos em geral (montes de benefícios, não fazer nada, salários acima da média, promoções automáticas, é fantástico), descobri, neste comentário a esta notícia quem são os novos parasitas da sociedade:


28.03.2008 - 09h34 - Filipa, Lisboa

A grande culpa por esta situação é dos PSICÓLOGOS e das suas teorias da treta de eterna desresponsabilização das "criançinhas" ! O governo deveria fechar todos os cursos de psicologia do país porque os "doutores" em psicologia são uns parasitas da sociedade!! Um par de estalos bem dados numa "criaçinha" quando merecido, é a melhor psicologia que esta pode receber.

E ainda neste comentário a esta outra notícia outros parasitas da sociedade:

27.03.2008 - 19h45 - Filipa, Lisboa

Estes senhores das artes são, salvo raras excepções de valor indiscutível, uns autênticos parasitas da sociedade! Vão mas é trabalhar, cambada de parasitas!! Grande Rui Rio!!

Nem sei se a senhora que faz o comentário é a mesma, talvez seja, talvez não. Sobre as opiniões, há uma frase muito interessante que não vou reproduzir aqui e que se aplica também à minha própria opinião, logicamente. Já agora, deve ter tido uns professores tão maus que nem aprendeu a usar correctamente o ç. E tenho curiosidade em saber quem são, do ponto de vista desta senhora, as raras excepções entre os artistas... palavra que tenho.

Adiante...

Calculo que eu sou 1,75 parasita: sou professora (1), pertenço a uma associação cultural, logo artística (mas como não sou artista propriamente dita, 0,5) e gostaria de ter tirado o curso de psicologia (0,25).

Agora, o que eu acho é que a sociedade não aguenta tantos parasitas, coitada. Por isso proponho que se encham uns quantos estádios com todos estes parasitas atrás identificados e se lance umas bombas lá para dentro. Assim, e duma assentada só, a sociedade livra-se dos professores, dos funcionários públicos (será que este conceito inclui políticos?), dos psicólogos e dos artistas, e ainda de uma série de estádios. São muitos coelhos duma assentada só. Livre desta escumalha, poderá então respirar e desenvolver-se saudavelmente. Será que há estádios que cheguem para tantos parasitas?

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sábado, março 22, 2008

Extinguir o GAVE e ter estatísticas independentes na Educação

Um dos problemas da nossa Educação é o facto de sistematicamente vermos o Ministério a trabalhar para a estatística. Em parte, este facto é responsável por grande parte da balda que reina nas salas de aula. Os alunos não chumbam por motivos estatísticos, pois isso daria um retrato ainda pior do sistema.

Para que não chumbem, não há exames e também deixou de haver, praticamente, retenções por faltas.

Ao não poderem controlar a progressão dos alunos, através dos instrumentos que tradicionalmente tinham ao seu dispor (castigos não corporais, faltas de castigo, chumbos, etc.), os professores perderam autoridade até ao ponto que vemos no pequeno vídeo que aqui publicamos (Professora brutalizada por tirar telemóvel na aula).

Mas é possível alterar este estado de coisas se o Ministério estiver disposto a extinguir o GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional) e a criar um instituto estatal com autonomia responsável pela avaliação das escolas e professores e pela realização de exames. Se esse instituto tiver a independência que têm, por exemplo, o INE ou o LNEC, então sim, podemos crer que o trabalho do Ministério - seja na gestão das escolas, seja na de programas como o 'Novas Oportunidades' - não visa tão somente a melhoria dos índices estatísticos.

Ao mesmo tempo, isso permitiria aos professores ter mais autonomia e poderem gerir as suas salas de aula do modo que entenderem mais conveniente, uma vez que não estariam obrigados às conveniências do Ministério ou do Governo que ele integra.

É uma proposta e haverá outras. Mas estou convicto de que serviria para uma melhoria do sistema de ensino.


Henrigue Monteiro, Expresso, 20 de Março de 2008
(
http://clix.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/272836)

Eu pergunto-me: Já alguém se apercebeu desta proposta?? Uma das poucas propostas com cabeça, tronco e membros que já vi referente à avaliação dos professores. Afinal, quem se avalia a si próprio quererá sempre mostrar, por via estatística se necessário, que tudo corre bem. Venha a avaliação externa e independente! Tenho a certeza que a maioria das pessoas dentro do sistema não se oporiam.


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sexta-feira, março 21, 2008

O célebre vídeo...



Acho que já toda a gente deve ter visto este vídeo até à exaustão. Ontem dei por mim a ler os comentários a esta notícia no Público online (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1323264&idCanal=58) e fiquei até às 2h da manhã a lê-los, numa espécie de fascinação masoquista, e depois de ter prometido a mim mesma parar de ler esse tipo de coisas pelo mal que me fazem.

Os portugueses andam a precisar de fazer uma psicanálise muito bem feita para descobrir onde anda a raiz de tal ódio contra os professores.

Até nestes comentários lá veio a velha frase de que os professores não querem ser avaliados, pessoas a comentar a actuação da professora, a dizer que ela não conseguiu manter a disciplina, que não tinha nada de roubar o telemóvel à aluna, etc.

Dei aulas três anos no Carolina Michaëlis. Não conheço a professora em questão, pelo menos não me lembro dela, já foi há uns anos. Mas reconheço neste filme uma actuação firme e respeitosa. A professora fez aquilo que cada um de nós deveria fazer. É muito fácil dizer "eu faria assim", ou "eu faria assado". Pois eu não sei o que faria numa situação destas. Não sei se me manteria tão calma.

Criticam a professora por não ter apresentado queixa. Alguém sabe o que acontece quando se apresenta uma queixa?

NADA.

Pois é, nada de relevante. As escolas e as DREs nunca querem avançar, para os meninos não ficarem com cadastro...

Eu não vejo meninos de bairros sociais naquela turma, aqueles que toda a gente acha que cometem estes actos. Vejo meninos de classe média. Pois é.

Por coincidência, no Carolina Michaëlis (concidência ou talvez não...) quando chamei pela quinquagésima vez um pai da minha direcção de turma (um 9º ano, por sinal) à escola para lhe dizer que o seu filho, para além dos problemas disciplinares que tinha (que nem eram assim tão graves, bem vistas as coisas) tinha faltas de atraso constantes porque ficava na Associação de Estudantes a jogar bilhar, o pai disse-me que a culpa era nossa, escola, porque o filho dele era uma criança (tinha 15 anos na altura) e nós é que tínhamos a obrigação de o ir buscar à Associação de Estudantes para ele vir para a aula... Também não é por acaso que o irmão mais velho deste aluno, na altura no 11º ano, creio, foi transferido da escola pelo pai no momento em que já estava previsto um Conselho Disciplinar para ele. Esse pai tinha formação superior. Hoje os filhos dele serão adultos, de corpo, pelo menos. A formação que terão?? Não sei... Até acredito que tenham formação superior como o pai; a formação moral é que... enfim, com um exemplo desses não há-de ser grande coisa.

Se esta menina e o resto da turma não forem punidos como deve ser, iremos assistir a mais cenas destas. Pode acontecer ao professor mais calmo e ponderado. E se acontecer a mim, eu garanto que apresentarei queixa na polícia, mesmo contra a vontade da DREN.

Eu não vou ao ponto de dizer que a culpa do comportamento destes adolescentes é da Ministra, do Governo e das suas políticas, a culpa será dos pais, da sociedade (sim, claro) e dos próprios, que já têm idade para pensar pela sua cabecinha. Mas três anos de constante desautorização em público dos professores, de responsabilização dos professores pelos males do sistema educativo, só levam ao aumento deste tipo de situações. É grave.

Eu exijo a minha autoridade de volta. Eu exijo poder apreender tudo o que esteja a perturbar a aula e a concentração dos alunos e sentir que a escola e a lei estão do meu lado. Exijo dar aulas sabendo que, se precisar de actuar disciplinarmente, serei apoiada pela escola, pela DREN e pela sociedade.

Aqui há uns tempos uns alunos disseram que seria bom se as aulas fossem filmadas, porque assim se via como os professores dão as aulas, etc. Pois eu deixei-os sem resposta ao dizer simplesmente: sim, era bom, assim toda a gente via como os alunos realmente se comportam e deixava de ser a palavra de um contra a palavra do outro. Eu gostava de ter as minhas aulas filmadas. Talvez assim passasse a dar mais aulas e menos palestras sobre comportamento. Este aluno, apesar de ter filmado isto com o intuito de humilhar a professora e de dever ser castigado por isso, acabou por nos prestar um serviço!

Já agora, não tenho problemas graves de comportamento nas minhas aulas, mas tenho alunos que, se não forem bem controlados, têm potencial para fazer isto e muito mais. O facto de ainda não ter acontecido não quer dizer que não venha a acontecer. Eu sou uma das pessoas que normalmente não deixo passar as situações que considero inaceitáveis e participo tudo o que achar que deve ser participado. Já ouvi insinuações de que faço mais participações do que outros colegas (eu e não só) como quem diz: "não controla os alunos". Pois, era bem mais fácil olhar para o lado e fazer de conta, fazer de conta que não vejo o telemóvel, o papelzinho a voar, a resposta torta, etc, que também acontecem a quem não faz participações só para não se chatear. Tenho de admitir que já fiz de conta ocasionalmente, e não me orgulho disso. Já estive numa situação em que, precisamente por causa dum telemóvel, o passo seguinte seria o confronto físico entre mim e o aluno. Tive sorte que o aluno, apesar de tudo, é sensato e não me tiraria o telemóvel da mão como esta aluna fez à professora. Eu também não lho tirei da mão, simplesmente participei a situação e recusei-me a envolver-me num confronto. Se ele mo tivesse tentado tirar da mão? Não sei o que faria...

Esta professora foi muito corajosa e agiu muito bem. Não deixou passar o que achou que estava mal.

Só peço a quem de direito que aja exemplarmente, caso contrário vai haver casos muito mais graves em breve!! Estão à espera que haja mortos ou feridos graves para agir??

Daqui a 15 anos hão-de precisar de professores e não os hão-de ter... Nessa altura vão andar connosco nas palminhas...

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segunda-feira, março 17, 2008

Um quadro

O meu irmão pintou-me este quadro, que eu lhe encomendei já há uns tempos (e ele só agora pôde fazê-lo).

Como ele sempre personaliza os seus quadros, este é sobre a comunicação (tem tudo a ver com uma pessoa de letras... ou que venha o Freud explicar o resto):
  • por trás, todas as letras e todos os algarismos;
  • em primeiro plano, uma mensagem de telemóvel (uma sms) de uma filha ao pai.
Gosto muito, e fica muito bem na minha sala. Obrigada, Zé!

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Algumas canecas que ofereci.

Já andava para pôr estas imagens aqui há uns tempos, mas ainda não tinha tido oportunidade. São canecas que pintei para oferecer a amigos.

As primeiras pintei para oferecer ao Fernando e à Sónia, um casal amigo. Ele é cantor profissional e por vezes dirige o Iubire, um dos coros a que pertenço. A Sónia, tal como eu, é coralista. Adivinhem que caneca é que dei a quem!








Estas duas caneca pintei para um outro amigo, que cobiçou as minhas canecas de ratinhos. Então pintei-lhe estas duas.



Já coloquei as imagens no flickr, destas e de outras coisas que fiz também no verão passado.

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domingo, março 09, 2008

8 de Março de 2008 - eu também fui









Se depois de ontem ainda há pessoas que acham que os professores são uns mandriões que não querem perder direitos e não se preocupam com os alunos ou com a qualidade do ensino, talvez esteja na altura de reflectir melhor. Quando as questões são apenas essas (e já foram no passado), não se mobiliza as pessoas dessa forma, não se junta as pessoas de tão diferentes ideologias políticas, mentalidades, etc. Somos mais de 140 mil em todo o país, ontem estivemos cerca de dois terços, e muitos dos que não foram queriam estar lá. Mobilizámos-nos num sábado, numa altura de tanto trabalho com as avaliações à porta, que o sábado perdido faz toda a diferença, e as únicas pessoas a quem prejudica é... a nós próprios (que o diga eu, que não sei onde vou encaixar os testes todos para corrigir, mais as avaliações para pensar e fazer, os relatórios de apoio para elaborar – e tenho a grande sorte de não ser directora de turma, ou este sábado faria ainda mais diferença).

Nós, que estamos por dentro, somo os primeiros a dizer que o ensino não vai bem em Portugal. Muito antes de esta ministra chegar ao poder, já nós sabíamos que os níveis de insuceso e de abandono eram escandalosos. Sabemos é algo que este governo mostra não saber (ou, na minha opinião, finge não saber porque não lhe convém): é que nenhum sistema educativo muda radicalmente em dois ou três ou quatro anos, mas das medidas que se tomam hoje muitas vezes só se vêem resultados palpáveis daqui a uma década ou mais. Ora, com as finanças públicas no estado em que estão, com um mandato de quatro anos, com a data limite para mostrar que se inverteu a situação à porta (2010), não admira que o governo ache mais fácil resolver o insucesso pela via estatística do que pela via que dá trabalho, custa muito dinheiro, e demora a mostrar resultados:

  • diminuir o número de alunos por turma para um máximo de 20;
  • diminuir o número de disciplinas que os alunos do ensino básico têm e remover as que não têm interesse nenhum e só prejudicam a capacidade de concentração dos alunos nas restantes disciplinas (refiro-me a Estudo Acompanhado, Área de Projecto e Formação Cívica, claro...) – fazendo isto nem seria preciso aumentar muito ao número de professores;
  • rever programas de forma a ser tornarem exequíveis durante o ano lectivo, principalmente até ao 9º ano, com menos conteúdos e mais tempo para desenvolver esses mesmos conteúdos de forma ajustada para os alunos (sabiam que com a mudança de aulas de 50 para 45 minutos perdemos umas horas de aulas por disciplina por ano – no meu caso, Inglês, calculo essa perda em cerca de sete horas – mas os programas mantêm a mesma extensão?)
  • equipar escolas e dotá-las de um orçamento ajustado que permita pagar o aquecimento no inverno para os alunos não tiritarem de frio durante as aulas – e já agora equipar muitas escolas com aquecimento –, um orçamento que dê para pagar fotocópias que tanta falta fazem (na minha escola o orçamento é tão baixo que o limite de fotocópias para os alunos do ensino básico – ensino obrigatório e gratuito, não nos esqueçamos – é ridiculamente baixo e tem de ser gerido com muito cuidado para não ser ultrapassado, desencorajando a criação de materiais diversificados para alunos com capacidades diferentes);
  • dar aos professores condições materiais na escola para fazerem o seu trabalho sem terem de constantemente pagar materiais, fotocópias, impressões, canetas, tinteiros, marcadores, lápis, borrachas, etc, etc do seu bolso;
  • responsabilizar mesmo alunos e pais – estes principalmente – pelos problemas de comportamento, pelo absentismo, e não passar a vida a passar a mão pela cabeça dos alunos, porque depois de fazer o que podemos fazer, ficamos de mãos e pés atados; por que não multar os pais cujos filhos faltam às aulas, por que não multar pais cujos filhos têm um comportamento desajustado – e não conseguem resolver os problemas dos seus filhos nem impor disciplina?
  • dotar as escolas de todos os recursos humanos de que precisa e sem os quais o funcionamento se torna mais difícil e menos apoiado – técnicos como psicólogos (ai que falta que fazem...) e professores do ensino especial, que nos ajudem a lidar com os alunos com os quais não sabemos lidar pois não estamos preparados para tal (a nossa função é essencialmente transmitir conhecimentos, é para isso que nos preparam); auxiliares de acção educativa em número suficiente para todas as necessidade da escola, e são tantas – é imoral recorrer constantemente aos Centros de Emprego para ter funcionários que estarão na escola seis meses, sem formação, para passado esse tempo serem substituídos por outros, e depois por outros, e depois por outros, e não reconhecer que essas pessoas fazem tanta falta que lhes devia ser dado um local de trabalho permanente, com pagamento adequado e suficiente para viver (e não a vergonha que são as remunerações dos funcionários não docentes), com formação adequada para a posição que ocupam;

Tanta mais coisa haveria a acrescentar, estas são aquelas de que me lembro. Para este governo é mais fácil mudar as coisas de forma estatística, de forma que, ao serem individualmente avaliados pelas notas que dão e pelos níveis de sucesso e abandono (mas ninguém vê como isto é perverso???) os professores acabem por baixar o nível de exigência e as notas subam de forma estatística, porque é só disso que se trata e mais nada... É imoral responsabilizar individualmente um professor por ter alunos com dificuldades, quando há tantas mas tantas questões que influenciam o sucesso ou insucesso dos alunos ou os níveis de abandono escolar (questões sócio-económicas, questões psicológicas, familiares, o aumento do desemprego, as baixas qualificações de tantas famílias, as famílias desajustadas, etc...). Responsabilizem uma determinada escola por não ser capaz de lutar contra isso enquanto escola, reconheça-se isso e dê-se apoios concretos às escolas para mudar as coisas e mobilizar a comunidade, mas não se responsabilize os professores individualmente ameaçando-os com sanções, ou entraves ao avanço na carreira, ou castigos como o não poder concorrer a destacamento caso não tenha o bom (é o meu caso, que estou efectiva longe de casa).

Finalmente, a educação é um serviço, não é nem pode ser um negócio! Para isso existem as escolas privadas. As escolas públicas não podem ser vistas como empresas. Às vezes é preciso “perder” dinheiro para ganhar, e muito, noutros aspectos. Mas isto ninguém diz, que o défice público e a UE não deixam...

E pronto, mais não tenho tempo para dizer, que os testes, hoje, domingo, quando devia estar a descansar e a recuperar para mais uma semana de aulas, me esperam... e esses têm de ser corrigidos agora, não há volta a dar! Por isso, vou trabalhar, aquilo que muita gente acha que nós não fazemos. Pensem o que quiserem: a mim interessa a opinião dos meus alunos apenas, e dessa eu não tenho medo...

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