Afinal, somos Mileuristas...
Opinião de Beja Santos n' O Primeiro de Janeiro de hoje:
Mileuristas, o retrato de uma geração
Em Maio de 1968, os jovens estudantes revoltosos parecem ser os protagonistas da História, sentem-se capazes de alterar o sentido da civilização, são contestatários, e críticos da sociedade de consumo. Porém, são igualmente a primeira geração da sociedade de consumo, nasceram num mundo diferente, no tempo do pleno emprego, de uma taxa de inflação muito baixa, de grandes níveis de crescimento. Estes jovens nascidos em 1945 ou 1946 não tinham praticamente conhecido as privações da guerra, cresceram com a opulência, o acesso aos cuidados de saúde para todos, as pensões de reforma e invalidez, quando se democratizava o sistema educativo, quando as férias passavam obrigatoriamente a ser em Agosto, era um mundo que parecia haver emprego para toda a vida.
Beja SantosSabemos hoje que os jovens que tinham feito o Maio de 1968 conquistaram o poder, já não pensam da mesma maneira e os jovens que lhes sucederam tornaram-se consumidores e pouco mais. Os jovens da primeira sociedade de consumo agora são os agentes da história, os jovens actuais são duvidosamente os agentes do consumo. Interessa saber porquê.
Com as vicissitudes do salto tecnológico dos anos 70 para os anos 80, iniciou-se a crise do Estado Providência, veio o liberalismo e nenhuma transformação económica, social e cultural passou a estar centrada nos jovens. Numa sociedade que passou a viver no sobressalto de sucessivas transições, vimos surgir jovens cada vez melhor equipados e a viver a precarização e mesmo a semipobreza: jovens de 25 a 34 anos, licenciados, bem preparados, falando línguas, acumulando competências e vivendo com cerca de mil euros por mês. “Mileuristas”, por Laura Espido Freire (Ambar, 2008) é o retrato dessa geração cheia de expectativas e que vive com baixos salários. É uma análise da sociedade espanhola mas que permite extrapolações e convida a fazer estudos fundamentados sobre os mileuristas que têm um elevado nível de escolaridade mas sem horizonte, consumistas e pobres, os portugueses.
O mileurista vive até tarde em casa dos pais, compra carro em 2 ª mão, não pode poupar, é habitualmente urbano, tem a ambição de viajar e quer ter sucesso no trabalho. O mileurista nasceu entre 1965 e 1980, viu o país a conhecer melhores redes viárias, envolvido em grandes eventos e com melhores níveis de escolaridade. É a geração do trabalho descartável e da compra de casa a quarenta anos. Quando começou a ser conhecida como a geração X, pensava-se que era uma simples etapa de transição. Veio a globalização, as pandemias, o terrorismo, mas acentuou-se o precário, os jovens estavam e estão cercados de empresas que fecham, de situações de pré-reforma, de cinismo e oportunismo. Em termos paradoxais, coabitam com a geração dos triunfadores e repartem com eles modos e estilos de vida, são uma geração marcada pela economia e não antevêem respostas fáceis para os problemas reais que atravessam a sociedade e a sua própria existência: os salários baixos, o preço da habitação, a falta de reconhecimento, as dificuldades de emancipação e a diferença entre as expectativas criadas e a realidade. O mileurista cresceu no meio de séries televisivas a apregoar o triunfo do indivíduo e numa economia de mercado centrada em Silicon Valley, Bill Gates e Richard Branson. Descobriu que o inglês é muita mais que a língua de negócios e da informática e que vão ter de estudar toda a vida pois o conhecimento está em permanente mudança, em nenhuma profissão é possível cristalizar. O mileurista é homem ou mulher até porque a sociedade de consumo alterou radicalmente o acesso à universidade, a mulher está praticamente em todas as carreiras prestigiadas, basta ver os prémios científicos, as juízas, arquitectas e engenheiras. A flexibilização não olha a sexos, a mileurista tem que ser competente em todos os terrenos, afrontar o trabalho temporário, os contratos descartáveis, suportar a dureza das rotinas quando é mãe mulher estudante e profissional e, por vezes, aceitar lugares penosos como emigrante ou como bolseira. Não é por acaso que se fala cada evz mais na geração de call-center e dos Mcjobs, trabalhos mal remunerados que trazem algum dinheiro e evitam a total dependência.
O mileurista altera o sistema de valores, contamina e é contaminado pelos baby boomers, os seus pais e tios que têm trabalho mais estável, que são executivos ou pequenos, médios ou grandes empreendedores. Estes baby boomers têm poder e na maioria dos casos, estimulam os mileuristas, nunca os convidando a sair de casa, atraindo-os muitas vezes ao negócio empresarial familiar.
O mileurista julga que merece muito mais, sente mais necessidade de evasão que as outras gerações, é por definição escapista, trabalha que se farta e é boémio, tem uma espiritualidade entre a recompensa imediata, a fé em algo superior, mas sempre com base numa religião à medida, na mente e na alma é um sonhador realista que não desistiu de acreditar em si. Tem pouca convicção no seu voto, concentra os seus direitos na sua condição de consumidor, aguarda a sua hora de cumprir os ideias, de melhorar o seus status, de deixar de pertencer ao grupo de mileuristas de transição. O mileurista, se tudo correr como está previsto, não se resignará à espera que tudo mude. Confia que tudo será melhor se ele próprio der o exemplo e triunfar em toda a linha.
Este livro tem, entre outros méritos, o de nos assegurar um retrato a preto e branco do que deverá ser a sociedade portuguesa e a sua geração mileurista. Valia a pena saber-se muito mais como são e para onde vão estes grupos não classificados de mileuristas com quem convivemos mas muito mal conhecemos, no seu todo.
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